Quinta-feira, 28 de Maio de 2009

O poço era baixo para cima e alto para baixo, a boca larga tanto em baixo quanto em cima, enquanto eu era pequenino pois não passava de uma criança. Os pássaros voavam num conjunto ordeiro ocupando pequenos espaços no céu, e quando o primeiro oscilava ou mudava de direcção para os lados os outros seguiam-no de imediato como se fossem pequenas formigas com asas. Aproximei-me do poço porque não tinha com quem brincar e debrucei-me sobre a sua boca para poder espreitar dele. Gritei para que o eco me devolvesse as palavras porque enfim eram minhas, haviam saído da minha boca, "Sou uma criança!" Mas o eco ficou-me com elas, não respondeu. Fiquei desanimado, porém tentei mais uma vez, "Sou a criança da boca do poço!" E dessa vez ele devolveu-mas, "Só te respondo se cá vieres ao meu fundo." E eu disse, "Na, na, depois não consigo sair." E ele insistiu, "Mas assim não podemos conversar. Não é isso que queres?", "Eu só quero brincar, não te esqueças de que sou apenas uma criança, além disso já estamos a conversar.", "Então está bem, pronto." Mas eu tive pena dele porque eu era só uma criança. Saltei para dentro do balde de matar a sede e desci-me poço adentro. Chegado a meio do caminho dei-me conta da corda esgarçada e foi então que senti medo. Eu, uma pequena criança, a descer para o fundo de um poço por um balde suspenso numa corda esgarçada... Decidi regressar a cima e vi que os meus amigos já haviam chegado. Corri, saltei, estatelei-me por sobre a relva, e finalmente deitei-me junto deles que já lá se encontravam há muito.



publicado por Mário Ramos d´Almeida às 00:25
Sexta-feira, 22 de Maio de 2009

Os meus pais levaram-me pela mão ao parque infantil de modo a que eu pudesse brincar com as outras crianças, e eu, que nunca gostara de brincar, vi-me forçado a ser criança. No parque infantil existiam baloiços, escorregas, muita relva verde, e até um pequeno lago repleto de vida e cor. As outras crianças corriam descoordenadas, chocavam umas nas outras e riam muito alto como se naquele momento lhes fizessem cócegas nos pés. Tentei correr junto delas, elas corriam tanto que parecia que eu só andava; Não chocavam contra mim, julgaram que eu teria peste, ou lepra, atiraram-me até para dentro do lago, e eu, que nunca soube nadar, não me molhei sequer. Os meus pais, que me observavam de muito longe, orgulharam-se e bateram-me as palmas. As outras crianças vieram-me abraçar e dar palmadas nas costas. Algumas quiseram mesmo beijar-me na face. Mas eu nunca gostara de brincar. Decidi escalar o escorrega porque também nunca gostara de ser beijado na face. Senti medo de escorregar por ali abaixo mas não o pude evitar até porque já havia caido por metade do caminho. Tinha medo de cair mas a verdade é que deslizava, e para mim nem isso acontecia. Fechei os olhos e voei celestialmente céus afora, até que os meus pés bateram no chão e eu abri os olhos e à minha volta todas as pessoas enalteceram a minha viagem com largos sorrisos. Os meus pais lá ao longe, abraçados. Decidi que o melhor para mim naquele momento seria baloiçar-me no baloiço. Esperei a minha vez com as mãos enterradas nos bolsos das calças sujas e sentei-me deleitado no baloiço ondulante. Agarrei as cordas com tanta força que quase sangrei as mão, tamanho o medo que sentia. Ondulei durante horas. Em baixo, sentia a segurança do chão próximo; Em cima, admirava a velha terra redonda. A dado momento, já não sentia o baloiço sob mim, apenas o vento a escorrer-me pela face e o amparo das alvas nuvens oscilantes. As estrelas caíram devagar, uma a uma, até que a luz do arrebol nascente me escancarou as pálpebras e o baloiço cessou de oscilar. Espreguicei-me. As outras crianças há muito que estavam em casa. Saltei destemido do baloiço parado e os meus pais acolheram-me em braços. E enquanto a cidade se agitava quotidianamente e os meus pais me levavam pela mão de regresso a casa, desejei eternamente brincar e ondular na plácida fluidez da vida.  



publicado por Mário Ramos d´Almeida às 20:51
Segunda-feira, 18 de Maio de 2009

Nasci há muito tempo, lembro-me bem. Seguraram-me pelos pés de cabeça para baixo, deram-me uma palmada no rabo para que eu pudesse chorar, mas eu não chorei porque não me havia ocorrido tragédia alguma, excepto o eu ter nascido, claro está. Mas nem isso foi tragédia pois não sabia sequer o que a palavra tragédia queria dizer. Embrulharam-me em lençóis muito quentinhos e atarraxaram-me uma chupeta na boca, e estando eu tão feliz era impossível não adormecer, como realmente aconteceu. Acordei em minha casa rodeado de parentes, e a determinado momento descobri que conseguia andar, embora voar me fosse impossível o que me deixou muito desanimado com a vida. Sentei-me na cadeira de baloiço do meu avô, fi-lo como quem se senta no transiberiano, guloso por uma grande aventura. Dormi. Sonhei com muitas coisas bonitas e passados muitos anos acordei e vi que afinal a vida não tinha só coisas bonitas e fiquei muito aflito, embora eu não soubesse o que era aflição. Resolvi então voltar a dormir mas os olhos não se me queriam fechar e tive de convencer as pálpebras com muita persistência até que acabei por o conseguir. Voltei a sonhar muito, muito, com muitas coisas ao mesmo tempo, e decorridos alguns séculos despertei e a casa onde me encontrava já não era a mesma, embora a cadeira de baloiço fosse ainda a do meu avô. Olhei-me no espelho e descobri que estava tal qual ele, mas que ele já havia morrido assim como toda a minha família. Foi então que me lembrei da palmada da parteira e chorei muito até que fiquei alagado em tristeza. 

 Hoje sei que estou muito velho, mas ainda não sei o que são tragédia, aflição nem tristeza, e é por isso que escrevo pois quero, antes de morrer, conhecer todas as emoções escondidas dentro de mim.



publicado por Mário Ramos d´Almeida às 13:44
Da infância, da vida e da morte.
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