Segunda-feira, 29 de Junho de 2009

Tenho tanto orgulho nas minhas pulgas quanto nas minhas carraças. O velhinho das barbas brancas que dorme comigo debaixo das arcadas, também tem em mim muito orgulho, caso contrário nunca me chamaria para jantar como ele faz todas as noites. Ele é muito bom para mim, guarda-me sempre o melhor osso, abre-me os braços para que eu me possa enroscar nele, e eu durmo assim, sem medo do frio. Não temos predadores nesta cidade, mas mesmo assim nunca dormimos tranquilos. As estações são deveras o nosso maior inimigo. Mas eu tenho-o a ele e os meus parasitas têm-me a mim e assim somos todos felizes e quentinhos. Gosto desta cidade embora aqui aconteçam coisas às quais nunca me habituarei. Existem uns animais enormes de patas esquisitas que andam sempre atrás uns dos outros numa chusma fumarenta. Acho que são devoradores de homens, mas é difícil ter a certeza. Digo-o porque, às vezes, vejo pessoas a sair das suas barrigas; não tenho a certeza porque também é usual vê-las lá entrar de sua livre vontade. Suponho que seja de livre vontade, mas eu sou apenas um bicho, não sei nem posso supor coisa alguma. Durante o dia farejo odores que me possam conduzir a comida ou a cadelas no cio. Durante a noite mostro a barriga ao meu velhinho para que ma coce. Mas a vida nem sempre é assim, generosa para comigo. É frequente voarem pés duros contra o meu corpo frágil, não sei porque razão. É frequente gritarem e ralharem comigo, não sei com que intuito. Mas nessas madrastas alturas eu bebo água das poças e estiro-me deleitado no chão da rua para que o sol me beije, me abrace e me conforte.



publicado por Mário Ramos d´Almeida às 19:20
Domingo, 21 de Junho de 2009

Planeei o dia do seguinte modo:

Despertar ao raiar da manhã assim que os primeiros raios de sol raiem no meu quarto; Acordar de bem com a vida, com o mundo, e se possível comigo mesmo; Tomar um pequeno almoço abundante em cereais, frutas e quantidades exacerbadas de alegria e de boa disposição; Deslocar-me, aos pulos, a casa do meu amigo Fulano e pedir-lhe, amavelmente, que por favor me devolva os livros que lhe emprestei, agora que estão decorridos cinco anos desde então - todos os dez; Despedir-me de Fulano cordialmente devolvendo-lhe o passou bem; Deixar os livros devolvidos em casa e passear tranquilamente ao longo do rio de modo a que a maresia me entre pelas narinas até ao cérebro, e me incite, finalmente, a escrever o poema que terei no momento na minha cabeça e no meu peito; Sentar-me perto de uma senhora bonita e escrever o poema; Oferecê-lo à senhora e convencê-la a ir para casa comigo, ou não sendo isso possível até ao café, ou ficarmos apenas os dois ali, eu admirando o quanto ela é bonita, ela o quanto eu sou sensível, pois naquele momento estarei afagando o focinho do cãozinho que lá estiver, e não sendo nem isto possível dormitar eu mesmo, sozinho, na minha triste figura, junto ao rio, com a maresia a sair-me pela boca; Pedir a um transeunte se se não se incomodar me indique um bom restaurante onde possa almoçar resfateladamente;  Almoçar no restaurante ao lado; Demorar-me no café; Sentir a barriga inchada; Acender um cigarro à porta do restaurante e gritar uma viva bem alto, mas de modo a que ninguém me oiça, por o dia estar tão belo e prazenteiro; Comprar o jornal e sentar-me no banco do jardim lendo apenas os gordos cabeçalhos com as crianças brincando alto de um lado para o outro, os namorados passeando de mãos apertadas uma na outra, os enfastiados velhos dormitando sonoramente de mãos cruzadas segurando a barriga ampla; Caminhar com a segurança que tenho em mim mesmo pelas grandes avenidas apinhadas e olhar todas as montras de todas as lojas até disso me cansar; Sentar-me então na esplanada da pior taberna das redondezas e saborear a melhor refeição que os deuses podem oferecer; Ir ao teatro e poder, enfim, não entender nada do que lá se passar como eu tanto gosto; Aplaudir os actores de pé se ninguém se levantar ou apludir sentado se a peça for muito boa; Abraçar os mendigos que se aquecem, à porta do teatro, nas suas fogueiras de cartão; Dar-lhes as boas noites; Abrir bem os braços e voar no regresso a casa não esquecendo de dar aos pés para não cair; Chegar a casa extenuado de felicidade e mergulhar na minha cama de madeira antiga; Sonhar com este maravilhoso dia.

O dia passou-se-me do seguinte modo:

Acordei tarde e com azia; Ao sair da cama esqueci-me de que havia chão e acabei por me estatelar nele; Saí de casa sem me alimentar e não achei a gabardine que tive de procurar pois a chuva agredia os vidros das minhas janelas sem dó; Perdi-me nas ruas da minha infância e não me encontrei a tempo de almoçar; Além de azia, febre; Procurei o meu amigo Fulano para lhe pedir que me devolvesse os livros que lhe emprestei, entanto em vez disso lançou-me vitupérios e coisas à sua mercê tais como um vaso de gerbérias e uma cadeira; Fui atingido por esta última na fronte; Além de azia e febre, dor de cabeça; Sentei-me no banco do jardim e pedi um beijo à senhora que lá se encontrava e recebi dois estalos, um em cada bochecha; Decidi adiantar o relógio para o dia se gastar mais rapidamente, mas já o havia perdido não sei onde; Decidi então que o melhorar seria regressar a casa na passada mais larga que eu tivesse mas a meio do caminho fui assaltado por uns quantos rufias e levaram-me até a vergonha; Regressei a casa em pelota; Decidi que, após este dia malsão, me deitaria na minha cama velha até ao ano seguinte; Assim aconteceu.

Conclusão: Aconselho: Não faças planos. 

 



publicado por Mário Ramos d´Almeida às 21:57
Domingo, 14 de Junho de 2009

Sonho. Sou um eminente arqueólogo. Descobri o sarcófago que contém o segredo que salvará a humanidade inteira. Sussurro o segredo ao meu ajudante e tranco-lhe o ouvido à chave. Entro numa sala contígua à sala do sarcófago. As paredes são arenosas e o chão poeirento. O pó passeia-se tranquilamente pelo meu corpo adentro, desde o intimo dos pulmões à ponta dos dedos dos pés. Temo que a qualquer momento se levante uma tempestade de areia dentro da sala. Temo que os insectos que não estão aqui se alimentem dos meus olhos. Sou muito temeroso. Procuro uma porta por onde possa sair mas só encontro um buraco na parede onde não cabe mais do que um dedo. Além disso, um pequeno fio de pedra atravessa o buraco verticalmente. Pressiono o meu dedo indicador contra o fio de pedra que se quebra com facilidade. Atravesso o dedo pelo buraco afora e o meu corpo segue-o. Estou fora da sala. Reparo que deixei o meu ajudante lá dentro. Não fosse o facto de o segredo me ter fugido da memória tê-lo-ia lá deixado. Assim sendo, volto à sala. Primeiro o dedo, depois o corpo. O meu ajudante está muito agitado. Sacudo-o pelos ombros e peço-lhe que por favor se acalme. Dou-lhe uma palmada nas costas receando que o segredo lhe tenha ficado preso na traqueia. Pergunto-lhe por ele. Esqueceu. Bato com a mão na testa. Sorte malvada! Estou furioso e quero sair da sala. Encaminho-me para o buraco. Espanto meu, está um homem do outro lado do buraco. Empunha uma grande espátula de pedreiro e sobre ela um grande pedaço de cimento fresco. O homem fita-me dentro dos olhos. Apressa-se sobre o buraco, tira um pedacinho de cimento do grande pedaço de cimento fresco sobre a espátula e reconstrói o fio de pedra. Agora afasta-se a sorrir. Olho em volta e não encontro o meu ajudante. Decido sair da sala. Pressiono o dedo contra o fio de pedra, mas este é mais resistente do que o primeiro. Tenho medo. Tenho muito medo. Estou em pânico. Quero sair. O homem ri. Perdi o meu ajudante. Não lembro o segredo. Desato a gritar, "Quero sair, quero sair! Por favor, deixa-me sair!" E é então que o empregado do café me ordena que saia debaixo da mesa enquanto a minha namorada, enfurecida, cora de vergonha.



publicado por Mário Ramos d´Almeida às 19:03
Domingo, 07 de Junho de 2009

O senhor pediu-me que por favor lhe segurasse a escada que jactante se erguia contra a parede do edifício. Eu tinha muito que fazer e por isso fiz, por todos os meios à minha disposição, com que o senhor entendesse que só o poderia fazer por um instante, contudo faria-o de bom grado. Ele garantiu-me que não demorava mais do que isso e então chegámos a um acordo. Eu segurei-lhe a escada e ele subiu por elas acima, e chegado ele quase ao último degrau eu tive de correr para os meus afazeres, como lhe havia feito entender, e escusado será dizer que ele se estatelou redondo no chão, como eu tacitamente o havia alertado. Enquanto corria eu a passadas largas ao encontro dos meus deveres profissionais, ele gritou-me, "Era só um instante, tinha-me prometido!" E eu obviamente respondi, "Sim, e segurei o instante que me pediu. Mas pelos vistos existem vários tipos de instante." E deixei-o segurando a cabeça que sangrava abundantemente.



publicado por Mário Ramos d´Almeida às 18:33
Quarta-feira, 03 de Junho de 2009

Conhecera-o apenas há dez minutos, mas o facto é que ele era meu amigo, o meu único amigo. Nós éramos duas crianças, portanto dávamos muitos abraços e trazíamos as calças rotas. Partimos da aldeia rumo à cidade e pelo caminho entrámos em várias quintas privadas, subimos a várias árvores frutuosas, e várias, e apetitosas, eram também as frutas que comemos. Largávamos das quintas sempre todos lambuzados e com as roupas todas sujas. Andámos muito, muito, mas tamanha era a satisfação com que conversávamos, cantarolávamos e saltávamos que o tempo já estava longo e eu teria de regressar a casa com breve urgência. A minha mãe esperava-me debruçada sobre as panelas e o meu pai de cinto na mão. Chegámos à aldeia em dois minutos e ao chegarmos o meu amigo colou as palmas das mãos à cara e chorou. Perguntei-lhe porque chorava ele, o que se passava. Ele respondeu-me entre soluços que não queria regressar a casa porque o pai seria muito severo, aplicar-lhe-ia castigos horrendos. Um dia teria de regressar mas não queria que fosse para já, não naquele momento. Então ofereci-lhe a minha casa, a minha comida, a minha cama, ele era meu amigo, e ficou-me muito agradecido. Quando no dia seguinte acordei já ele lá não se encontrava e eu lancei-me doido à sua procura. Quando por fim desisti e me sentei na soleira encardida da porta da minha casa, ele apareceu enrolado num lençol segurando o fogo sábio. Ofereceu-mo. Havia-o roubado à família e disse-me que o pai seria capaz de lhe dar a comer os olhos aos bichos por essa traquinice. Eu ri-me e ele assegurou-me que seria verdade. Eu ri-me novamente e ele agradeceu-me tudo o que havia feito por ele.

Nunca mais vi o meu amigo, nem soube o que o destino lhe concedeu. Guardo ainda hoje o fogo sábio antigo, não o darei a ninguém nunca, foi ele quem mo deu, nem nunca esquecerei o meu amigo, o meu único amigo, Prometeu. 



publicado por Mário Ramos d´Almeida às 19:50
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