Domingo, 30 de Agosto de 2009

Preparavam-se para sair do átrio e entrar por um dos corredores quando o homem de trás tocou o ombro do militar e lhe mostrou os olhos esbugalhados. O militar assentiu com a cabeça. O visitante olhava ora um ora outro percebendo perfeitamente que comunicavam entre si nas suas costas através de sinais. O militar dirigindo-lhe um sorriso cínico disse, "O senhor visitante deixou as suas malas de viagem com alguém? Trouxe-as consigo? Consegue lembrar-se?" O visitante, meio tonto com as perguntas, respondeu, "Mas que disparate é este? Porque raio não havia de  me lembrar onde deixei as minhas malas? E que importância tem este assunto neste momento? Neste preciso momento?" O militar tentou sossegar o visitante oferecendo-lhe pequenas palmadas nas costas, "Vamos homem, acalme-se, não há razões para esse espalhafato. Se perguntei pelas suas malas neste preciso momento é porque me preocupo com a sua situação." O homem de trás e a mulher balofa entreolhavam-se preocupadamente no decorrer deste diálogo. "No meu país não sucedem situações destas." disse o visitante. E o militar, "Ah,  sim, no país Longínquo. Não conheço nem nunca ouvi falar. Talvez seja melhor iniciarmos a visita. O tempo urge. Estamos felizes que tenha vindo dentro do prazo previsto. Contudo, temos de avançar o mais rapidamente possível. Antes ainda de iniciarmos a visita, tenho de alertá-lo para uma situação: Acaso o senhor visitante, do tal país Longínquo, vislumbre qualquer papel no chão, faz favor de o apanhar. Depois, caso haja tempo para isso, terá de o depositar ali atrás, " e apontou para o balcão da recepção, "precisamente ali atrás. Acontece que os senhores directores, tudo gente respeitabilíssima, por vezes se esquecem de que existe um depósito para o lixo por detrás deste balcão, e depois é o que se sabe e se compreende, largam os papeis por aí. Portanto, peço-lhe, não se esqueça disto, por favor. E agora continuemos." Mal o militar avançou um passo, foi travado pela mão indignada do visitante no seu peito, "Não entendo o que se passa aqui. Quero visitar o museu sozinho! Não entendo porque me disse o senhor essas coisas, nem que interesse as minhas malas lhe possam ter. e porque este senhor se colocou atrás de nós? Não o vejo, mas estou sempre com a mesma incómoda sensação de que anda para aqui aos pinotes e a cirandar atrás de mim. Não entendo este vosso comportamento, e portanto já me decidi: vou-me embora!" Todos se atrapalharam. O homem de trás empurrava o militar na direcção do visitante, a mulher balofa praguejava entre dentes. O militar respondeu desesperadamente numa voz esganiçada, "Ora essa. Não cometa essa loucura, por favor. Além disso o senhor visitante do país Longínquo ainda não viu qualquer sala. Tampouco passámos do átrio do museu. Existe uma sala especialmente espantosa que lhe diz respeito e que o senhor terá de ver, obrigatoriamente." "Iremos apenas a essa sala então. Depois saio deste manicómio. Mas desde já aviso que qualquer papel que eu aviste no chão lá continuará, se isso depender de mim. E agora vamos. De que sala se trata?" e o militar, "Explicarei tudo pormenorizadamente assim que lá chegarmos. E agora vamos. Estamos muito atrasados. Ah!, quase me esquecia, não é permitido, neste museu, andar de mãos enterradas nos bolsos. Temos de as colocar atrás das costas. Assim olhe, está a ver? Reparou bem?" E o visitante retirando as mãos dos bolsos e revirando os olhos, "Sim, sim, claro."

 

continua  



publicado por Mário Ramos d´Almeida às 20:19
Domingo, 16 de Agosto de 2009

O Museu de Etnologia estava a uma hora do seu encerramento quando o visitante do país longínquo lá chegou. Antes de decidir entrar, ficou admirando a arquitectura exterior do edifício do museu, deixando-se encantar pelas suas linhas curvas e modernas com laivos de arrojo. Enquanto olhava as janelas alinhadas do último piso, sentiu a estranha sensação de estar a ser observado através de uma dessas janelas. Porém, fixando o seu olhar na janela e não vislumbrando qualquer vulto humano, convenceu-se de que tudo não passava de uma maquinação da sua terrível imaginação. Abeirou-se finalmente da porta principal do museu que se lhe deparou entreaberta. Ficou confuso, como sempre acontece com quem se depara  com portas entreabertas. Questionou-se: Aguardava pacientemente ou entrava sem mais delongas sujeitando-se ao vexame de se expor como um intruso, coisa que aliás nunca havia sido? Sempre aguardara quando se lhe depararam portas entreabertas. Sempre. Porém, este museu exercia um fascínio tal sobre a sua vontade que todos os pudores se dissiparam e decidiu colocar a cabeça no espaço deixado vago pela porta entreaberta. Mal iniciou o movimento para o fazer, foi abalroado por um magote de turistas que quase o sentou no chão. Logo atrás do grupo surgiu um homem baixo com formas de barril e farda militar. O visitante perguntou que raio se passava ali, ao que o militar respondeu, "Ora, já viram o suficiente. Agora entre. Por favor, entre. Há muito que esperávamos a sua visita." O visitante decidiu aceitar tamanha gentileza e ambos entraram lado a lado no museu. "Venho do país Longínquo." Disse o visitante, "Tive a sensação que o ouvi dizer que há muito que aguardavam pela minha visita. Não posso deixar de estranhar esta situação." O militar tentou colocar o braço sobre o ombro do visitante mas tendo este quase o dobro do seu tamanho apenas o enrolou à volta da cintura, e respondeu, "Não se incomode com isso agora. Vou-lhe mostrar o museu e por certo que irá gostar. Serei o seu cicerone. Gostará tanto que, sem qualquer dúvida, não se importará de cá gastar o resto da vida."

Encontravam-se dentro do enorme átrio do museu. De um dos corredores que afluíam ao átrio, surgiu um outro grupo de turistas que se encaminhava em passadas largas para a porta de saída. Atrás do grupo, uma mulher balofa, mais baixa do que alta, surgiu batendo as palmas e gritando, "Xô!, xô!" O grupo saiu porta fora e a mulher balofa gritou na direcção do visitante e do militar, "Pronto, eram os últimos." Ainda não tinham estas palavras acabadas de ser proferidas, já o militar puxava o visitante para si pela cintura e lhe dizia, "Perfeito. Temos todo o gosto em mostrar-lhe o museu. Temos colecções assombrosas, como os seus próprios olhos poderão testemunhar." E assim, o visitante, com o militar de um lado, a mulher balofa do outro, e uma terceira pessoa que do nada se lhes juntou, pôde iniciar a visita ao Museu de Etnologia. Essa terceira pessoa, que se juntou ao grupo sem proferir qualquer palavra que se afigurasse perceptível ao ouvidos de todos, visto não serem os grunhidos considerados compreensíveis ou sequer palavras, colocara-se estrategicamente atrás do três primeiros.

 

Continua 



publicado por Mário Ramos d´Almeida às 18:49
Domingo, 09 de Agosto de 2009

O dia estava tão bonito, tão cheio de luz e brilho e cor, que depressa me cansei do mundo e da vida. Foi por isso que me deitei na calçada suja da rua mais movimentada da cidade, e permiti que os corvos se alimentassem das minha vísceras. As bicadas eram profundas mas eu nada sentia senão um extremo cansaço da vida. Das pessoas que por mim se cruzavam para atravessar a rua, quase todas não se incomodavam que eu estivesse para ali deitado na companhia de dois corvos, tampouco me emprestavam o olhar. Poucas delas me perguntavam porque raio me permitia eu a estar para ali deitado com dois corvos a alimentarem-se das minhas entranhas, mas nunca esperavam pela minha resposta e antes de proferirem a última sílaba já elas partiam, felizes da vida. O certo é que as multidões se intimidam com quem se deita nas ruas.

Notava-se perfeitamente que os corvos me tinham muito afecto, tal a voracidade com que se alimentavam de mim. Eu correspondia-lhes na afeição, entanto decidi que eles ainda não se haviam alimentado o suficiente. Pedi-lhes que parassem de bicar a minha barriga aberta. Eles, como é óbvio, assentiram. A um deles, pedi que me bicasse os olhos para que eu nada mais visse nesta vida, ao outro, que me bicasse profundamente o coração doente para que todo o sentimento e vida se esvaíssem de mim de uma vez por todas. Eles assentiram.



publicado por Mário Ramos d´Almeida às 18:40
Segunda-feira, 03 de Agosto de 2009

O patrão quis falar a todos os seus subalternos e para isso ordenou que todos se deitassem no chão da praça, de barriga para cima, como era usual, sem executar qualquer movimento, por mais leve que fosse. Colocou o pé sobre o meu peito, como também era usual pois era sempre o meu peito que ele escolhia, cruzou os braços sobre o joelho flectido e disse na voz trovão do deus Thor, "Vós haveis faltado ao compromisso com a nossa organização: Todos vós haveis cruzado os braços pelo lado da frente quando sabeis perfeitamente que só poderíeis fazê-lo pelo lado de trás. "Nisto apontou para um dos subalternos, "Você, levantai-vos e explicai aos seus colegas como se faz. Braços para trás, isso mesmo, a mão direita agarra o pulso esquerdo, exactamente assim como o vosso colega está a demonstrar, tendes a liberdade de optar em utilizar a outra mão para agarrar o pulso contrário, mas nada de brincar com os dedos nem de lascar a ponta das unhas, sequer de arrancar a pele em volta delas. Mas é isso que tem acontecido. E agora tornai a deitar-se na mesma posição de ouvinte atento." Antes de continuar a arengar, limpou com dois dedos a saliva que se acumulava aos cantos da boca. Como sempre, o seu cheiro de chiqueiro causava-me vómitos internos abomináveis. Na mesma voz trovejante, continuou, "Todos vós aqui presentes sabeis que tendes de caminhar normalmente e não colocar um pé em frente do outro, ou seja, tocar o calcanhar de um na biqueira do outro, como o fazem as crianças. Sabeis, desde há muito, que isso não é admissível na nossa organização e no entanto fizestes-o. E por último, embora tivesse ainda muito mais a apontar-vos, sabeis que não é permitido trocar ideias, palavras, sequer grunhidos, entre vós, a não ser sob expressa determinação escrita pela minha pessoa, mas, apesar de o saberdes, vós trocastes. Julgueis que cometendo estes actos subversivos podereis passar impunes, mas desenganai-vos, tudo aqui na nossa organização é-me comunicado por via oral, escrita, informática, não é possível qualquer acontecimento, da natureza dos que aqui apontei, nem de qualquer outra, passar despercebido. Vós haveis faltado ao compromisso previamente assumido, tacitamente aceitado, com a  nossa organização, e portanto devereis sofrer a respectiva punição." Fez uma pausa para escarrar na face de um dos subalternos, que, naturalmente, não a pôde limpar, e continuou, " A punição será a seguinte: Ireis atirar-vos da ponte mais alta do país. Tereis um prazo de duas horas para o fazer, caso contrário sereis fuzilados. Apreciai a minha benevolência, dou-vos duas horas, quando uma seria tempo suficiente para o fazer. Quanto à punição, creio ser a mais adequada para situações desta gravidade. E agora, levantai-vos e puni-vos!" Todos os subalternos se levantaram e correram a cumprir a punição com a maior brevidade possível. Eu fui forçado a esperar que o patrão retirasse o pé fincado de sobre o meu peito. Apercebendo-se da minha impaciência olhou-me gelidamente e disse, "Tu não. Não cumpriste as determinações da organização, contudo preciso do teu peito para reuniões futuras." E com isto retirou o pé do meu peito e fincou-o pesadamente sobre a minha cabeça.



publicado por Mário Ramos d´Almeida às 21:05
Da infância, da vida e da morte.
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