Segunda-feira, 03 de Agosto de 2009

O patrão quis falar a todos os seus subalternos e para isso ordenou que todos se deitassem no chão da praça, de barriga para cima, como era usual, sem executar qualquer movimento, por mais leve que fosse. Colocou o pé sobre o meu peito, como também era usual pois era sempre o meu peito que ele escolhia, cruzou os braços sobre o joelho flectido e disse na voz trovão do deus Thor, "Vós haveis faltado ao compromisso com a nossa organização: Todos vós haveis cruzado os braços pelo lado da frente quando sabeis perfeitamente que só poderíeis fazê-lo pelo lado de trás. "Nisto apontou para um dos subalternos, "Você, levantai-vos e explicai aos seus colegas como se faz. Braços para trás, isso mesmo, a mão direita agarra o pulso esquerdo, exactamente assim como o vosso colega está a demonstrar, tendes a liberdade de optar em utilizar a outra mão para agarrar o pulso contrário, mas nada de brincar com os dedos nem de lascar a ponta das unhas, sequer de arrancar a pele em volta delas. Mas é isso que tem acontecido. E agora tornai a deitar-se na mesma posição de ouvinte atento." Antes de continuar a arengar, limpou com dois dedos a saliva que se acumulava aos cantos da boca. Como sempre, o seu cheiro de chiqueiro causava-me vómitos internos abomináveis. Na mesma voz trovejante, continuou, "Todos vós aqui presentes sabeis que tendes de caminhar normalmente e não colocar um pé em frente do outro, ou seja, tocar o calcanhar de um na biqueira do outro, como o fazem as crianças. Sabeis, desde há muito, que isso não é admissível na nossa organização e no entanto fizestes-o. E por último, embora tivesse ainda muito mais a apontar-vos, sabeis que não é permitido trocar ideias, palavras, sequer grunhidos, entre vós, a não ser sob expressa determinação escrita pela minha pessoa, mas, apesar de o saberdes, vós trocastes. Julgueis que cometendo estes actos subversivos podereis passar impunes, mas desenganai-vos, tudo aqui na nossa organização é-me comunicado por via oral, escrita, informática, não é possível qualquer acontecimento, da natureza dos que aqui apontei, nem de qualquer outra, passar despercebido. Vós haveis faltado ao compromisso previamente assumido, tacitamente aceitado, com a  nossa organização, e portanto devereis sofrer a respectiva punição." Fez uma pausa para escarrar na face de um dos subalternos, que, naturalmente, não a pôde limpar, e continuou, " A punição será a seguinte: Ireis atirar-vos da ponte mais alta do país. Tereis um prazo de duas horas para o fazer, caso contrário sereis fuzilados. Apreciai a minha benevolência, dou-vos duas horas, quando uma seria tempo suficiente para o fazer. Quanto à punição, creio ser a mais adequada para situações desta gravidade. E agora, levantai-vos e puni-vos!" Todos os subalternos se levantaram e correram a cumprir a punição com a maior brevidade possível. Eu fui forçado a esperar que o patrão retirasse o pé fincado de sobre o meu peito. Apercebendo-se da minha impaciência olhou-me gelidamente e disse, "Tu não. Não cumpriste as determinações da organização, contudo preciso do teu peito para reuniões futuras." E com isto retirou o pé do meu peito e fincou-o pesadamente sobre a minha cabeça.



publicado por Mário Ramos d´Almeida às 21:05
Da infância, da vida e da morte.
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