Domingo, 09 de Agosto de 2009

O dia estava tão bonito, tão cheio de luz e brilho e cor, que depressa me cansei do mundo e da vida. Foi por isso que me deitei na calçada suja da rua mais movimentada da cidade, e permiti que os corvos se alimentassem das minha vísceras. As bicadas eram profundas mas eu nada sentia senão um extremo cansaço da vida. Das pessoas que por mim se cruzavam para atravessar a rua, quase todas não se incomodavam que eu estivesse para ali deitado na companhia de dois corvos, tampouco me emprestavam o olhar. Poucas delas me perguntavam porque raio me permitia eu a estar para ali deitado com dois corvos a alimentarem-se das minhas entranhas, mas nunca esperavam pela minha resposta e antes de proferirem a última sílaba já elas partiam, felizes da vida. O certo é que as multidões se intimidam com quem se deita nas ruas.

Notava-se perfeitamente que os corvos me tinham muito afecto, tal a voracidade com que se alimentavam de mim. Eu correspondia-lhes na afeição, entanto decidi que eles ainda não se haviam alimentado o suficiente. Pedi-lhes que parassem de bicar a minha barriga aberta. Eles, como é óbvio, assentiram. A um deles, pedi que me bicasse os olhos para que eu nada mais visse nesta vida, ao outro, que me bicasse profundamente o coração doente para que todo o sentimento e vida se esvaíssem de mim de uma vez por todas. Eles assentiram.



publicado por Mário Ramos d´Almeida às 18:40
Da infância, da vida e da morte.
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