Quinta-feira, 19 de Novembro de 2009

Capitulo 1 2ªparte 

 

 

Mas se queria recuperar a minha vida teria de tomar decisões. Uma vez que estava impedido de entrar em minha própria casa, decidi alugar um quarto de hotel, no intuito de, pelo menos, ter um local onde dormir e um local onde as minhas malas pudessem estar em segurança, e após isto resolvi deslocar-me à empresa.

            A empresa situava-se na zona nova da cidade sendo que todo o seu edificio era um enorme espelho moderno. Chegado à recepção – local por onde já passara milhões de vezes antes, mas, sensação estranha, entrava no edificio pela primeira vez – fui travado por um dos seguranças, por sinal o que de todos havia mostrado, no passado, maior respeito e afinidade para comigo. Pediu-me a identificação, ao que eu, incrédulo, respondi perguntando porque era necessária essa formalidade comigo, que tantas vezes entrara naquele edificio, tantas vezes nos haviamos cruzado e trocado não só palavras de circunstância como igualmente assuntos de índole íntima. Sim, Óscar, era este o seu nome, havia sido em tempos meu confidente, a única pessoa em quem poderia confiar quase cegamente. Mas não agora. Já não poderia confiar em ninguém, fiquei certo disso naquele momento. E mais certo disso fiquei quando lhe perguntei se se recordava de mim, ao que ele me respondeu, “Nunca o vi antes em toda a minha vida.” Insisti, “Tem a certeza disso? O seu nome não é Óscar? Trabalho nesta empresa há mais de dez anos, conheço-o praticamente desde essa altura. Como é possível que não se recorde sequer da minha face?!”, “Olhe que eu possuo uma memória de elefante, já a minha mãe me dizia. Pobre senhora, faleceu já faz cinco anos, sabia? De qualquer modo, se o tivesse visto antes recordar-me-ia, com toda a certeza. Acontece inúmeras vezes pessoas virem aqui uma única vez apenas, repare: uma única vez!, trazer ou buscar algum documento, pois repare, eu vejo-as na rua e reconheço-as de imediato. Até me consigo recordar do dia em que cá estiveram e do assunto que as trouxe. Acontece inúmeras vezes. Portanto, esteja certo do que lhe digo, caro senhor. Se o tivesse visto antes recordar-me-ia. Contudo, não é o caso. Sim, o meu nome é Óscar. Mas qualquer pessoa que consiga ler o descobre visto ter o cartão de identificação bem à vista de todos, aqui pendurado no meu peito.” De nada adiantaria eu insistir. Algum bandalho roubara-me a identidade, o meu corpo, a minha face, e eu nada podia fazer. Havia tomado o meu lugar na minha familia, na minha casa, no meu emprego. Tudo! Eu agora nada tinha. Quem era eu agora afinal? Ninguém, temi eu. E temo ainda neste momento.

            A minha carteira desaparecera do bolso das calças. Presumi, e presumo ainda, que alguém ma tivesse surrupiado enquanto dormia no banco do jardim, entanto nada posso provar. Sem identificação não sou ninguém. Um corpo incógnito apenas, errando, pesaroso, pelas ínvias ruas da grande cidade. Preparava-me para, desgraçadamente, abandonar o edifício, quando se cruzou comigo, altivo, de pasta na mão, o bandalho, o ladrão, o usurpador de identidades. Na vez de sair, fiquei aguardando com curiosidade policial os seus movimentos. O bandalho demorou-se largamente com Óscar, discutindo trivialidades como eu tanto gostava de fazer. Era evidente que havia tomado o meu lugar na empresa e enfureci-me de indignação, enfureci-me tanto que as palavras saltavam por si só da minha boca, palavras ofensivas e indignadas, gritadas bem alto para que todos conhecessem a peça que ali se encontrava, um bandalho da pior espécie, um usurpador! Óscar veio em seu socorro. Colocou-me dolorosamente o braço atrás das costas e lançou-me porta fora com uma violência tal que aterrei de rojos na calçada poeirenta. Ergui-me mais a minha dignidade e sacudi o pó da roupa. Aquilo não iria ficar assim, prometi a mim mesmo. Decidi apresentar uma queixa na esquadra de polícia mais próxima. Lá chegado, contei tudo o que se havia passado desde que regressara do estrangeiro, e fi-lo com mais pormenor do que o faço aqui nesta missiva. E de que me valeu este meu esforço de detalhe? Nada, absolutamente nada. Os guardas riram-se descaradamente na minha cara. O meu relato divertiu-os tanto que os próprios detidos que lá se encontravam riram desavergonhadamente. Parece-me que cheguei a ouvir um dos guardas chamar outros que se encontravam de serviço na rua, para que também fossem ouvir o meu relato. Resolvi abandonar aquele manicómio e quando o fiz levei o meu orgulho preso por uma trela, mas a minha honra intacta. Já havia dobrado o quarteirão e ainda os ouvia rir. Estupores!



publicado por Mário Ramos d´Almeida às 21:51
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