Terça-feira, 07 de Julho de 2009

Já fui em tempos uma frondosa árvore; hoje sou um homem robusto. Compreendo que este facto cause algum espanto na nossa sociedade: Situação banal é um homem transformar-se em árvore, não o inverso como sucedeu comigo. Contudo, não sei se ser excepção é um previlégio ou uma condenação. Não pedi nada nem fiz mal a ninguém, não rezei a Deus nem fiz pactos com o Diabo. Enquanto árvore, uns adoravam-me, outros ignoravam, houve quem em mim marcasse o território ou fizesse ninho, mas, como podem ver, tudo situações normalíssimas, não havia razões para isto me acontecer. Bom, mas agora não há nada a fazer. 

Onde outrora tinha raizes profundas que me sustinham no solo, hoje tenho duas pernas arqueadas que mal sei utilizar - apesar de serem fortes ainda não aprendi a coordena-las correctamente, e amiúde as pessoas com quem me cruzo na rua têm de me amparar em ombros; tinha belos ramos fortes que se entregavam, deliciados, às brisas do fim de tarde, hoje tenho duas mãos na ponta de dois braços, e é claro que se revelam úteis mas são coisas brutas e o vento não gosta de lhes soprar. Deram-me um coração que bombeia sangue com uma constância irritante e dois pulmões que me fazem oscilar o peito, e ainda que isso me distraia não o posso impedir. Antigamente sentia o pulsar da terra penetrar-me docemente e nunca me cansava disso! Mas mais grave do que tudo isto: Deram-me a natureza do Homem. Pela primeira vez na vida tenho vontade de torcer pescoços, seduzir mulheres, cometer ilegalidades - e quanto mais imorais melhor! - beijar o meu melhor amigo na face e dizer aos guardas "É este." ajudar cegos a ir de encontro às paredes, deitar portas abaixo com o meu pé em riste, dizer aos velhinhos que o Fim do Mundo está para breve e depois roubar-lhes a casa enquanto eles saem para a rua de braços no ar. Entanto, nem tudo é assim. Também coço o queixinho dos bebés com o dedo enquanto lhes invento uma careta, aperto as bochechas aos desconhecidos nos cafés, e, além disso, só seduzo uma mulher de cada vez. 

Sinto saudades de ser árvore. Saudades de me elevar bem alto nos céus e fazer cócegas na barriga das nuvens; gritar aos pássaros "Sim, a vossa casa é por ali." ouvi-los cantar pela manhã, agradecidos, pousados nos meus ramos; ver passar o cortejo real com os seus ricos coches reais, os seus famintos súbditos reais, e o rei com a sua pança real; dar sombra ao camponês que dormita encostado ao meu tronco, e aos amantes cujas mãos oscilam saias acima calças abaixo; ver nascer, ver morrer, ver passar... Hoje tudo me angustia. Hoje, qualquer senão, qualquer dúvida, apresenta-se como uma fatalidade perante mim. Esta nova natureza desgosta-me. No Outono ficava despido mas nunca senti vergonha por isso, quando o vento soprava mais forte e me partia os galhos eu nunca fiquei ofendido. Compreendi sempre que eram ossos do ofício de ser árvore. Hoje não espirrem à minha frente pois sou bem capaz de vos degolar, não estou a brincar. Queria ser árvore e não homem, mas, bem sei, não há nada a fazer. Agora, apenas vivo a vida que já vi passar. Hoje sou um homem robusto, mas já fui em tempos uma frondosa árvore. 



publicado por Mário Ramos d´Almeida às 20:20
Parabéns pelos contos! :)
Inês Antunes a 8 de Julho de 2009 às 21:19

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