Domingo, 16 de Agosto de 2009

O Museu de Etnologia estava a uma hora do seu encerramento quando o visitante do país longínquo lá chegou. Antes de decidir entrar, ficou admirando a arquitectura exterior do edifício do museu, deixando-se encantar pelas suas linhas curvas e modernas com laivos de arrojo. Enquanto olhava as janelas alinhadas do último piso, sentiu a estranha sensação de estar a ser observado através de uma dessas janelas. Porém, fixando o seu olhar na janela e não vislumbrando qualquer vulto humano, convenceu-se de que tudo não passava de uma maquinação da sua terrível imaginação. Abeirou-se finalmente da porta principal do museu que se lhe deparou entreaberta. Ficou confuso, como sempre acontece com quem se depara  com portas entreabertas. Questionou-se: Aguardava pacientemente ou entrava sem mais delongas sujeitando-se ao vexame de se expor como um intruso, coisa que aliás nunca havia sido? Sempre aguardara quando se lhe depararam portas entreabertas. Sempre. Porém, este museu exercia um fascínio tal sobre a sua vontade que todos os pudores se dissiparam e decidiu colocar a cabeça no espaço deixado vago pela porta entreaberta. Mal iniciou o movimento para o fazer, foi abalroado por um magote de turistas que quase o sentou no chão. Logo atrás do grupo surgiu um homem baixo com formas de barril e farda militar. O visitante perguntou que raio se passava ali, ao que o militar respondeu, "Ora, já viram o suficiente. Agora entre. Por favor, entre. Há muito que esperávamos a sua visita." O visitante decidiu aceitar tamanha gentileza e ambos entraram lado a lado no museu. "Venho do país Longínquo." Disse o visitante, "Tive a sensação que o ouvi dizer que há muito que aguardavam pela minha visita. Não posso deixar de estranhar esta situação." O militar tentou colocar o braço sobre o ombro do visitante mas tendo este quase o dobro do seu tamanho apenas o enrolou à volta da cintura, e respondeu, "Não se incomode com isso agora. Vou-lhe mostrar o museu e por certo que irá gostar. Serei o seu cicerone. Gostará tanto que, sem qualquer dúvida, não se importará de cá gastar o resto da vida."

Encontravam-se dentro do enorme átrio do museu. De um dos corredores que afluíam ao átrio, surgiu um outro grupo de turistas que se encaminhava em passadas largas para a porta de saída. Atrás do grupo, uma mulher balofa, mais baixa do que alta, surgiu batendo as palmas e gritando, "Xô!, xô!" O grupo saiu porta fora e a mulher balofa gritou na direcção do visitante e do militar, "Pronto, eram os últimos." Ainda não tinham estas palavras acabadas de ser proferidas, já o militar puxava o visitante para si pela cintura e lhe dizia, "Perfeito. Temos todo o gosto em mostrar-lhe o museu. Temos colecções assombrosas, como os seus próprios olhos poderão testemunhar." E assim, o visitante, com o militar de um lado, a mulher balofa do outro, e uma terceira pessoa que do nada se lhes juntou, pôde iniciar a visita ao Museu de Etnologia. Essa terceira pessoa, que se juntou ao grupo sem proferir qualquer palavra que se afigurasse perceptível ao ouvidos de todos, visto não serem os grunhidos considerados compreensíveis ou sequer palavras, colocara-se estrategicamente atrás do três primeiros.

 

Continua 



publicado por Mário Ramos d´Almeida às 18:49
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