Sábado, 10 de Outubro de 2009

A Franz Kafka

 

Caminhava eu pela rua deserta como se nela não existisse qualquer abismo. O corpo pendia ora para um lado, ora para o outro, conforme a irregularidade do calcetado pavimento, os braços caiam-me inertes, ao longo, sujeitos às pouco confiantes passadas, meus pensamentos sibilavam pelas orelhas como se expelidas de dentro de um balão de hélio furado soprando desconcertado no vago ar até que à minha volta tudo se enrugou. Era um trajecto conhecido mas nem por isso mais seguro. Antes o inverso. Caminhava pela primeira vez nessa sinistra rua que me parecia interminável, e me permitia avistar no horizonte as suas fachadas cinzentas e sombrias - tudo me parecia sinistro e sombrio! - que se me abriam e estendiam a passagem. Os céus, Deus!, os céus!, até agora imaculados, eram-me agora um escuro tormento com um terrível odor a infidelidade. Caminhei nesta angústia infindáveis minutos até avistar, ao fundo, um minúsculo vulto. Senti um leve receio pelo hábito que já sentia à solidão da rua. Aos poucos foi-se desvanecendo e transformando em resignação primeiro, até à alegria e entusiasmo finais. Imaginei as mais desconcertantes faces e características físicas particulares, até que o vulto se aproximava, aproximava, tornando-se finalmente num corpo inteiro. Não se encontrava a mais de trinta passos e certas características físicas eram-me agora evidentes, como as pernas arqueadas, não obedecendo a um qualquer ritmo, e a estatura mediana e franzina. Só a face permanecia incógnita, virada para o chão, vislumbrando-se apenas o louro cocuruto, dando a impressão que o sujeito se divertia vendo os pés aparecer e desaparecer na base do corpo. Todas estas características eram-me duma familiaridade inquietante. No preciso momento em que nos cruzámos, um trovão partiu o escuro céu, as fachadas cinzentas e sombrias cercaram-nos, e o abismo abriu a imensa boca e vorazmente nos engoliu. Enquanto caíamos infindavelmente, e num assombro de curiosidade, segurei com as duas mãos a face do outrora vulto que caía a meu lado. Estupefacto e resignado constatei que aqueles olhos, aquela face, não era ninguém senão eu. 



publicado por Mário Ramos d´Almeida às 18:22
Amigo Mário! Quantas e quantas vezes não nos reconhecemos nos caminhos escuros que percorremos. Belo texto, uma vez mais. Abraço.
manu a 11 de Outubro de 2009 às 18:34

E uma vez mais, muito obrigado pelo simpático elogio e por continuares a acompanhar os meus textos. Um abraço.

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