Domingo, 18 de Outubro de 2009

Um viajante perdera-se na árida paisagem das dunas desérticas. Os ávidos abutres sobrevoavam, em círculos, a sua cabeça. Caminhava há muito, e caminhou tanto que já não era ele quem caminhava mas antes o chão que se movia sob os seus pés descalços. Toda a sua roupa ficara para trás. Não comia nem bebia fazia dias, e havia meses que não vislumbrava vivalma. Estava tão cansado que decidiu deitar-se. Dormitou alguns minutos apenas, até que por fim acordou. Com a cabeça caída para o lado, avistou dois homens, ao longe, montados cada um no seu camelo. Tentou juntar todas as forças que lhe restavam para se soerguer, mas debalde o fez pois o máximo que conseguiu foi levantar um braço a meia altura. Os abutres continuavam a observá-lo na paciência dos seus círculos. Os dois homens chegaram, finalmente, perto do viajante. Este tentou pedir ajuda mas já nem o braço conseguiu mover. Um dos homens apeou-se, ajoelhou-se diante do viajante e tomou-o pelo pulso. Este suplicou ao homem, "Dai-me água, por favor, dai-me água." O homem, dirigindo a cabeça para o outro, disse, "Está morto." O viajante replicou, "Não, não estou. Não me ouvis? Acabei de vos pedir água." O apeado, ainda debruçado sobre o viajante e com a cabeça dirigida para o outro, continuou, "Está morto, e parece que o está há vários dias. Não tarda os abutres virão devorá-lo. Só não entendo porque ainda não vieram." O outro respondeu, "Deixemo-lo com eles. Prossigamos a nossa viagem." O apeado concordou. Enquanto escalava o camelo, disse ainda, "O cheiro é intolerável. É já o terceiro viajante morto que encontramos hoje. Se encontramos mais algum vomito até as entranhas." O outro riu-se. O viajante, temendo pelo seu destino, ainda gritou com todas as forças que lhe restavam, "Ireis deixar-me aqui? Não tendes compaixão alguma dentro de vós? Ajudai-me, por favor! Os abutres estão cada vez mais próximos, os seus círculos são espirais cada vez mais descendentes! Ajudai-me, por favor!" Mas iam já os homens sobre os camelos cada vez mais perto do horizonte, e já os abutres lhe depenicavam a pele e a carne. O viajante ainda gritava, "Dai-me água, por favor! Os abutres estão cada vez mais próximos. Peço-vos, ajudai-me!" E assim continuou até o último pedaço de carne se desprender do seu corpo inerte.



publicado por Mário Ramos d´Almeida às 17:56
Obrigado amigo Manu . Assim é a vida... E a morte. Arrepiante e deliciosa... (Mais a primeira do que a segunda.)
Mário Ramos d´Almeida a 20 de Outubro de 2009 às 20:00

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