Sexta-feira, 22 de Maio de 2009

Os meus pais levaram-me pela mão ao parque infantil de modo a que eu pudesse brincar com as outras crianças, e eu, que nunca gostara de brincar, vi-me forçado a ser criança. No parque infantil existiam baloiços, escorregas, muita relva verde, e até um pequeno lago repleto de vida e cor. As outras crianças corriam descoordenadas, chocavam umas nas outras e riam muito alto como se naquele momento lhes fizessem cócegas nos pés. Tentei correr junto delas, elas corriam tanto que parecia que eu só andava; Não chocavam contra mim, julgaram que eu teria peste, ou lepra, atiraram-me até para dentro do lago, e eu, que nunca soube nadar, não me molhei sequer. Os meus pais, que me observavam de muito longe, orgulharam-se e bateram-me as palmas. As outras crianças vieram-me abraçar e dar palmadas nas costas. Algumas quiseram mesmo beijar-me na face. Mas eu nunca gostara de brincar. Decidi escalar o escorrega porque também nunca gostara de ser beijado na face. Senti medo de escorregar por ali abaixo mas não o pude evitar até porque já havia caido por metade do caminho. Tinha medo de cair mas a verdade é que deslizava, e para mim nem isso acontecia. Fechei os olhos e voei celestialmente céus afora, até que os meus pés bateram no chão e eu abri os olhos e à minha volta todas as pessoas enalteceram a minha viagem com largos sorrisos. Os meus pais lá ao longe, abraçados. Decidi que o melhor para mim naquele momento seria baloiçar-me no baloiço. Esperei a minha vez com as mãos enterradas nos bolsos das calças sujas e sentei-me deleitado no baloiço ondulante. Agarrei as cordas com tanta força que quase sangrei as mão, tamanho o medo que sentia. Ondulei durante horas. Em baixo, sentia a segurança do chão próximo; Em cima, admirava a velha terra redonda. A dado momento, já não sentia o baloiço sob mim, apenas o vento a escorrer-me pela face e o amparo das alvas nuvens oscilantes. As estrelas caíram devagar, uma a uma, até que a luz do arrebol nascente me escancarou as pálpebras e o baloiço cessou de oscilar. Espreguicei-me. As outras crianças há muito que estavam em casa. Saltei destemido do baloiço parado e os meus pais acolheram-me em braços. E enquanto a cidade se agitava quotidianamente e os meus pais me levavam pela mão de regresso a casa, desejei eternamente brincar e ondular na plácida fluidez da vida.  



publicado por Mário Ramos d´Almeida às 20:51
Da infância, da vida e da morte.
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