Sábado, 10 de Outubro de 2009

A Franz Kafka

 

Caminhava eu pela rua deserta como se nela não existisse qualquer abismo. O corpo pendia ora para um lado, ora para o outro, conforme a irregularidade do calcetado pavimento, os braços caiam-me inertes, ao longo, sujeitos às pouco confiantes passadas, meus pensamentos sibilavam pelas orelhas como se expelidas de dentro de um balão de hélio furado soprando desconcertado no vago ar até que à minha volta tudo se enrugou. Era um trajecto conhecido mas nem por isso mais seguro. Antes o inverso. Caminhava pela primeira vez nessa sinistra rua que me parecia interminável, e me permitia avistar no horizonte as suas fachadas cinzentas e sombrias - tudo me parecia sinistro e sombrio! - que se me abriam e estendiam a passagem. Os céus, Deus!, os céus!, até agora imaculados, eram-me agora um escuro tormento com um terrível odor a infidelidade. Caminhei nesta angústia infindáveis minutos até avistar, ao fundo, um minúsculo vulto. Senti um leve receio pelo hábito que já sentia à solidão da rua. Aos poucos foi-se desvanecendo e transformando em resignação primeiro, até à alegria e entusiasmo finais. Imaginei as mais desconcertantes faces e características físicas particulares, até que o vulto se aproximava, aproximava, tornando-se finalmente num corpo inteiro. Não se encontrava a mais de trinta passos e certas características físicas eram-me agora evidentes, como as pernas arqueadas, não obedecendo a um qualquer ritmo, e a estatura mediana e franzina. Só a face permanecia incógnita, virada para o chão, vislumbrando-se apenas o louro cocuruto, dando a impressão que o sujeito se divertia vendo os pés aparecer e desaparecer na base do corpo. Todas estas características eram-me duma familiaridade inquietante. No preciso momento em que nos cruzámos, um trovão partiu o escuro céu, as fachadas cinzentas e sombrias cercaram-nos, e o abismo abriu a imensa boca e vorazmente nos engoliu. Enquanto caíamos infindavelmente, e num assombro de curiosidade, segurei com as duas mãos a face do outrora vulto que caía a meu lado. Estupefacto e resignado constatei que aqueles olhos, aquela face, não era ninguém senão eu. 



publicado por Mário Ramos d´Almeida às 18:22
Segunda-feira, 05 de Outubro de 2009

Tenho tido durante toda a minha vida um único sonho sonhado. Todos os dias, todas as noites, o mesmo arrepio na espinal-medula, o mesmo trovejar no corpo e na alma, principalmente na minha cabeça, no meu cérebro, bem dentro dele. E sonho o seguinte sonho sonhado:

Estou numa sala mal iluminada pendurado pela pele do cachaço num cabide da parede. Tenho os braços esticados horizontalmente presos por duas fortes correias de cabedal. São fortes porque eu nunca me tento libertar delas. Os pés estão livremente suspensos sobre o chão frio, um ao lado do outro. À minha frente está uma secretária com um papel que é escrevinhado pelo homem que lá está sentado. Ele escrevinha mas não tem nada nas mãos, apenas aperta o polegar contra o indicador e faz uns movimentos circulares enquanto me fita hipnoticamente. De pé do seu lado direito, está outro homem. O rosto é cadavérico e aterrador, traz o tronco despido de onde saltitam músculos ao mais leve movimento. Segura numa das mãos um longo chicote que frequentemente o faz estalar no chão. Cheio de medo, pergunto-lhes,  "Quando me posso ir embora?" mas não obtenho resposta alguma. Um escrevinha coisas invisíveis, o outro estala o chicote. Insisto, "Quando me posso ir embora?" O que está de pé, sempre fito nos meus olhos e mostrando-se surpreendido responde, "Porque te queres ir embora?",  "Porque ninguém gosta de ser chicoteado." digo. E o homem, "Quem é esse ninguém? Estás ao serviço de quem?", "Pelo amor de Deus, não me faça mal, não conheço pessoa alguma neste país. E o senhor, porque faz estalar assim esse chicote? Já disse que não conheço ninguém.", "Mau, mau... Assim não nos entendemos...", "Sim, eu também só quero entender. Por favor, deixem-me ir embora!", "Já disse para te calares!", "Quando?", "Cala-te!" O chicote volta a estalar mais uma e outra vez, e outra, mas agora no meu peito, abrem-se-me fendas, pedaços de carne caem-me no chão. O que está sentado mostra a palma da mão ao do chicote. Este torna a estalar no chão. O primeiro pega no papel com uma mão em cima e outra em baixo e estende os braços na minha direcção. Pede-me que leia o papel. Eu, por muito que me esforce, e esforço, nada vejo lá escrito. E de novo o chicote no meu corpo dormente, mais fendas, mais carne pútrida a conspurcar o chão. "E agora, diz-me o que vês.", "Esta penumbra é muito limitadora, no entanto os meus olhos já se lhe habituaram. A folha que o senhor segura tem escrita:«SENTENÇA:» Apenas isto. E agora, já me posso ir embora? Tenho o peito repleto de fendas.", "Ainda não. Ainda te falta ler o resto da folha.", "Mas não há resto na folha.", "Isso é porque ainda não estás preparado." E novamente o chicote, carne pútrida no chão, também pele e sangue. A dor foge-me sempre pela garganta e pela boca. Volta-me a ser mostrado o papel. Agora leio: "Condenado por submissão. SENTENÇA: Cem chicotadas ou chicoteado até à morte." O medo tranca-me o cérebro, as fendas transbordam de sangue. O sentado diz, "Agora sabes porque não te podes ir embora. Tens de cumprir a sentença." O do chicote avança sobre mim e conta até cem. Por fim, desprende-me das fortes correias de cabedal, retira-me da parede e atira-me para o canto mais escuro da sala, onde outros homens definham lentamente numa montanha de dor. Enquanto aguardo que o meu corpo exangue por fim suspire, o sentado grita, "O próximo!" Na sala mal iluminada entra um outro homem, cadavérico também. O do chicote pousa a arma na secretária e avança para a parede onde se encontram o cabide e as correias de cabedal. O homem que entrou pendura-o pelo cachaço, prende-lhe os pulsos, encaminha-se para a secretária onde segura o chicote e, fazendo-o estalar no chão, posiciona-se à direita do juiz.

Desperto sempre antes do meu último suspiro.



publicado por Mário Ramos d´Almeida às 19:10
Sábado, 26 de Setembro de 2009

Tenho um irmão siamês. Partilhamos tudo, sempre partilhámos tudo, mas cada um tem o seu próprio pescoço e, consequentemente, a sua própria cabeça. Tudo o mais partilhamos. Formamos um corpo normal com duas pernas, dois braços, um órgão genital, um coração. Existe apenas uma ligeira bifurcação do tronco à altura do peito. Inclusive, cada um tem o seu próprio nome, mas como nunca ninguém nos trata por ele é desnecessário referir quais são. Para a grande totalidade dos nossos familiares, amigos e conhecidos somos apenas o da Direita e o da Esquerda. O primeiro sou eu. Já os desconhecidos, à primeira abordagem, têm algum pudor em nos tratar individualmente, quero dizer, no singular. É frequente perguntarem-nos, "Prefere que o trate por tu ou por vocês?" Por mim é indiferente. Penso que quaisquer destas formas de tratamento se adequam à nossa condição bicéfala. Já o meu irmão faz imensa questão. Como o conheço muito bem não o levo a mal. Mas, em verdade, ele tem uma natureza muito peculiar: Exemplo: ele toma a realidade pelo lado de dentro. Para ele sonho e realidade obedecem às mesmas ordens, pertencem à mesma dimensão, são feitas da mesma matéria. Não estabelece qualquer distinção entre uma coisa e outra. Já eu concebo o sonho como um universo distante e inútil. Para mim só há realidade no lado de fora. O que me preocupa e ocupa a vista são apenas as coisas reais, nada mais. Talvez seja por isso que ele anda sempre com um olhar sonhador, as pupilas cintilantes, olhando, distraidamente, coisas que não existem. Por essa razão, amiúde, sucedem percalços. Sucede imensas vezes, por exemplo, durante as refeições, ele levar o seu braço, com o garfo e comida na ponta, à minha boca por engano. Eu não me importo - realmente, pouca coisa me importa - excepto se estivermos na companhia de senhoras. Não deixa de ser uma situação confrangedora, mas eu compadeço-me com ele. Aliás, tudo nele me enternece. O seu conceito de beleza é para mim uma raridade. O que lhe anima o espírito de tão belo, diz ele, a mim faz-me os olhos fugir para dentro, em pânico. Para mim beleza é só beleza. Para ele beleza é também fealdade. A propósito do Mundo costuma dizer, "O Mundo é sonho e invenção. O próprio sonho é inventado." Não o entendo e ele também não se esforça por se fazer entender. Momentos há que me esqueço que tenho um irmão logo ali no outro lado do ombro, tal é a solidão em que ele se encerra. Acredito, suponho que acredito, que estes estados de alma são apenas consequência do abuso do álcool. Em outros momentos ele é abundantemente eloquente nas suas ideias e é capaz de pasmar qualquer um. Eu muito aprecio esta sua particularidade. Apenas lamento que esta sua faceta não seja frequente. É meu irmão, não o renego, mas, por vezes, sinto por ele inveja e ciúme. Inveja pela sua generosidade, pela acuidade e destreza do seu pensamento, e da sua beleza física, entenda-se facial; Ciúme porque as mulheres olham bem mais para ele do que para mim. Tenho por vezes vontade, juro por tudo que tenho, de nos atirar de um penhasco abaixo só para não ter de o suportar. Tenho sincera vontade de lhe cortar a cabeça pela parte do pescoço e fazê-la rolar encosta abaixo só para ficar vê-la rolar e ter a absoluta consciência de que ele vai dentro dela. Mas só penso isto da boca para dentro. A verdade é que tenho um irmão siamês que muito prezo e estimo, e louvo a Natureza por isso.



publicado por Mário Ramos d´Almeida às 16:34
Sábado, 19 de Setembro de 2009

Uma vez que a manhã estava deliciosamente agradável, luminosamente branca, belissimamente pálida, decidi visitar o Sr.. Ernesto a sua casa. Éramos muito amigos, ele era muito velho, muito magro, eu sou terrivelmente feio. O Sr.. Ernesto vivia num pardieiro sombrio, num lúgubre prédio de fachada antiga. Como não existia elevador e a sua casa se encontrava num 4ºandar, eu subia as escadas sempre com muita dificuldade mas descia sempre ao pé coxinho. Bati na porta com o punho cerrado produzindo a tal musiquinha com que ele me reconhecia. Mas nada, nem sinal do Sr.. Ernesto. Bati muitas outras vezes até que decidi utilizar a chave que ele me havia oferecido. Já dentro da sua casa gritei, "Sr. Ernesto! Sr. Ernesto! Sou eu, X! Não se recorda de mim? Uso bigode e bengala, ambos por diversão!" Mas não havia meio de retirar o Sr.. Ernesto da toca em que se havia enclausurado. As baratas subiam-me pelas pernas acima e o fedor recordava-me um velório. Depois de vasculhar toda a casa, entrei no seu quarto. Ao lado da cama encontrei um corpo retorcido: Era o Sr.. Ernesto! Virei-o para mim puxando-o por um braço. Tinha espuma saindo-lhe da boca, os olhos fixos em agonia, as mãos encarquilhadas. Na mesa-de-cabeceira descansava um frasco de cianeto destampado, e debaixo deste, uma folha de papel esvoaçava tocada pelo vento da janela aberta. Peguei na folha sem tocar no frasco de cianeto, puxando-a rapidamente para mim. Era uma carta. Li-a:

«A quem me encontrar, ou melhor, ao Sr.. X, meu amigo, pois bem sei que será o senhor quem me encontrará,

Como decerto já reparou, estou morto. Se não reparou trate de reparar, se não estou morto trate de me matar. Estará neste momento, com toda a certeza, questionando-se porque raio cometi eu este acto de loucura, digo loucura porque decerto o senhor está pensando que esta é a melhor designação para o meu acto. Entanto, em meu entender, se é que com esta idade eu já entendo coisa alguma, este meu acto nada tem de loucura. Não se questione mais. Este foi um acto de amor, meu querido amigo X. Passo a explicar: Como porventura já o senhor tinha reparado - entanto duvido que o tenha pois o senhor é muito distraído, o que até lhe acrescenta um ar engraçado, devo confessar - eu não vivia, existia apenas. E a diferença entre estes dois processos é tremenda meu amigo, tremenda! A diferença entre viver e existir é que o primeiro é deveras um processo, enquanto o segundo não passa de um mero estado, um estado desolador. Como pode alguém viver viver sem amor, sem aquele sentimento que nos preenche a alma e que através dele, e apenas através dele, saciamos o corpo? Não é que não tenha encontrado o amor, encontrei-o. Ah!, se encontrei! Mas esse amor não me pertencia, primeiro porque esse amor já teria encontrado um outro, e segundo porque nunca me poderia pertencer. E sendo este o caso de nada adianta procurar razões para isso ser assim , pois no amor nunca há razões para nada. Portanto, eu amava quem não poderia amar e por isso eu só poderia amar dissimuladamente. Pois foi isto que me sucedeu, meu  querido X. Tudo isto é muito simples. Se o amor é, como toda a gente sabe, a corda com que Deus nos levita a alma, e não sendo possível eu amar e ser amado, então meu querido X, permita-me que o trate só por meu querido, pareço condenado a ser companheiro de Lúcifer pelos confins da eternidade afora. Portanto, meu amor, meu querido X, se o senhor também me ama, junte-se a mim. Pegue nesse frasco e amemo-nos, juntos de Deus, porquanto as almas celestiais não possuem género. Se também me ama, venha, eu por cá o espero. Deixo-lhe um beijo meu querido X.

Ernesto»

Fiquei muito tonto e por isso fiz da carta uma bola amassada e deixei-a junto do fétido corpo do Sr.. Ernesto. Saí daquela casa o mais rapidamente que consegui. Bati a porta estrondosamente e desci as escadas ao pé coxinho. Já na rua, encostei-me na parede do lúgubre prédio recuperando o fôlego. Pensei de mim para mim, "Eu também amo, amei o Sr.. Ernesto. Contudo de nada me adiantaria beber do seu frasco de cianeto, a minha ética ateia não mo permite, de modo algum. Que a sua alma descanse em paz." Posto isto, encaminhei o guarda mais próximo até à casa do Sr.. Ernesto e prossegui a minha vida sem mais delongas.



publicado por Mário Ramos d´Almeida às 17:30
Sábado, 12 de Setembro de 2009

Bati três vezes à porta da velha casa mas ninguém me respondeu. Gritei, "Ó da casa!", nada, "Está alguém?", nada. Tornei a bater como se não tivesse obtido resposta alguma, além do ricochete da minha voz trémula. Tinha escolhido aquela casa porque era a única das redondezas cuja chaminé fumegava, ouvia barulho dentro da casa, televisão a palrar, crianças a brincar, pessoas a discutir, mas ninguém me ouviu bater, e eu que só queria uma sopa quente porque sentia muito frio. Frenético, enrolei-me no grosso casaco imundo e esperei que a porta enfim se abrisse mas isso não aconteceu, mas mesmo assim eu esperei. Pensava já em desistir quando por fim a porta chiou e um homem grande surgiu por detrás dela. Disse-me com maus modos, "O quê!? Ainda aqui estás? Faz três dias que bates à minha porta quando te disse já variadíssimas vezes que não tenho sopa quente. Nem fria tampouco, quanto mais quente. Vai-te embora, já te disse." e eu respondi-lhe, Não o quero incomodar. Só lhe peço ajuda, não precisa de me dar sopa. Dê-me uma tigelinha de ajuda, por favor. Não o quero incomodar." A porta fechou-se com estrondo. A minha alma abanou. Esperei mais alguns anos à porta da velha casa, a chaminé sempre a fumegar, mas ninguém entrava ou saía. Um dia a porta abriu-se, sem eu ter batido sequer, o homem grande surgiu por detrás dela e estava agora grisalho e encarquilhado. Ordenou-me que entrasse. Aquiesci, sentia muito frio. Disse-me estas palavras, "Estou muito velho, muito cansado. Como imaginas, já não tenho condições para cuidar desta família. Senta-te. Esta agora é a tua poltrona. Esta a tua mulher, estas as tuas crianças. Agora, esta é a tua família. Mas lembra-te: Nunca dês sopa a ninguém. Quando te sentires velho e cansado chamas o homem que estiver de pé na soleira da porta. Ele cuidará bem da tua casa, podes estar seguro. Adeus." O homem saiu da velha casa. Eu permaneci sentado na minha poltrona.

Nunca mais senti frio.



publicado por Mário Ramos d´Almeida às 16:36
Sábado, 05 de Setembro de 2009

O pequeno grupo avançou corredor afora. À medida que avançavam, o corredor estreitava mais e mais, as paredes nuas tornavam-se cada vez mais frias. Durante o percurso, que não terminava nunca, não se proferiu uma única palavra, apenas sinistros entreolhares entre o militar, a mulher balofa e o homem de trás, que se manteve sempre atrás do grupo. O corredor estreitou tanto que o acesso à sala só se podia fazer com uma pessoa de cada vez, e enfiando o corpo lateralmente. E assim entraram na sala, uns a seguir aos outros. A sala estava quase completamente vazia, as paredes brancas. Uma redoma de vidro vazia, com o suficiente tamanho de albergar uma pessoa humana, encontrava-se no centro da sala. Um papel enrolado jazia no chão à frente do grupo. Todos olharam o visitante que empurrou o papel para um dos cantos da sala com um pontapé convicto. Após isto, apenas silêncio. Por fim, o visitante atirou, "Porque raio me trouxeram para esta sala vazia?" E o militar, "Esta sala tem estado fechada há muito, na verdade nunca abriu, por isso que aguardávamos a sua visita com tamanha impaciência. Esta sala é referente ao povo do país Longinquo, do seu país Longinquo." E o visitante inquieto, "Não compreendo..." Nesse momento, o homem de trás bateu uma palma. O militar agarrou num dos braços do visitante, a mulher balofa no outro, e enquanto o encaminhavam, sem qualquer resistência, para a redoma de vidro, o militar concluiu, "Ser-lhe-á concedida a imortalidade,  meu caro. Você é um notável espécimen do seu povo longínquo. Aqui todos os visitantes o poderão ver, apreciar, estudar. Agora sim, já poderemos abrir a sala." E já com o visitante resignado no seu interior, o homem de trás fechou a redoma de vidro.

 

Fim



publicado por Mário Ramos d´Almeida às 16:59
Domingo, 30 de Agosto de 2009

Preparavam-se para sair do átrio e entrar por um dos corredores quando o homem de trás tocou o ombro do militar e lhe mostrou os olhos esbugalhados. O militar assentiu com a cabeça. O visitante olhava ora um ora outro percebendo perfeitamente que comunicavam entre si nas suas costas através de sinais. O militar dirigindo-lhe um sorriso cínico disse, "O senhor visitante deixou as suas malas de viagem com alguém? Trouxe-as consigo? Consegue lembrar-se?" O visitante, meio tonto com as perguntas, respondeu, "Mas que disparate é este? Porque raio não havia de  me lembrar onde deixei as minhas malas? E que importância tem este assunto neste momento? Neste preciso momento?" O militar tentou sossegar o visitante oferecendo-lhe pequenas palmadas nas costas, "Vamos homem, acalme-se, não há razões para esse espalhafato. Se perguntei pelas suas malas neste preciso momento é porque me preocupo com a sua situação." O homem de trás e a mulher balofa entreolhavam-se preocupadamente no decorrer deste diálogo. "No meu país não sucedem situações destas." disse o visitante. E o militar, "Ah,  sim, no país Longínquo. Não conheço nem nunca ouvi falar. Talvez seja melhor iniciarmos a visita. O tempo urge. Estamos felizes que tenha vindo dentro do prazo previsto. Contudo, temos de avançar o mais rapidamente possível. Antes ainda de iniciarmos a visita, tenho de alertá-lo para uma situação: Acaso o senhor visitante, do tal país Longínquo, vislumbre qualquer papel no chão, faz favor de o apanhar. Depois, caso haja tempo para isso, terá de o depositar ali atrás, " e apontou para o balcão da recepção, "precisamente ali atrás. Acontece que os senhores directores, tudo gente respeitabilíssima, por vezes se esquecem de que existe um depósito para o lixo por detrás deste balcão, e depois é o que se sabe e se compreende, largam os papeis por aí. Portanto, peço-lhe, não se esqueça disto, por favor. E agora continuemos." Mal o militar avançou um passo, foi travado pela mão indignada do visitante no seu peito, "Não entendo o que se passa aqui. Quero visitar o museu sozinho! Não entendo porque me disse o senhor essas coisas, nem que interesse as minhas malas lhe possam ter. e porque este senhor se colocou atrás de nós? Não o vejo, mas estou sempre com a mesma incómoda sensação de que anda para aqui aos pinotes e a cirandar atrás de mim. Não entendo este vosso comportamento, e portanto já me decidi: vou-me embora!" Todos se atrapalharam. O homem de trás empurrava o militar na direcção do visitante, a mulher balofa praguejava entre dentes. O militar respondeu desesperadamente numa voz esganiçada, "Ora essa. Não cometa essa loucura, por favor. Além disso o senhor visitante do país Longínquo ainda não viu qualquer sala. Tampouco passámos do átrio do museu. Existe uma sala especialmente espantosa que lhe diz respeito e que o senhor terá de ver, obrigatoriamente." "Iremos apenas a essa sala então. Depois saio deste manicómio. Mas desde já aviso que qualquer papel que eu aviste no chão lá continuará, se isso depender de mim. E agora vamos. De que sala se trata?" e o militar, "Explicarei tudo pormenorizadamente assim que lá chegarmos. E agora vamos. Estamos muito atrasados. Ah!, quase me esquecia, não é permitido, neste museu, andar de mãos enterradas nos bolsos. Temos de as colocar atrás das costas. Assim olhe, está a ver? Reparou bem?" E o visitante retirando as mãos dos bolsos e revirando os olhos, "Sim, sim, claro."

 

continua  



publicado por Mário Ramos d´Almeida às 20:19
Domingo, 16 de Agosto de 2009

O Museu de Etnologia estava a uma hora do seu encerramento quando o visitante do país longínquo lá chegou. Antes de decidir entrar, ficou admirando a arquitectura exterior do edifício do museu, deixando-se encantar pelas suas linhas curvas e modernas com laivos de arrojo. Enquanto olhava as janelas alinhadas do último piso, sentiu a estranha sensação de estar a ser observado através de uma dessas janelas. Porém, fixando o seu olhar na janela e não vislumbrando qualquer vulto humano, convenceu-se de que tudo não passava de uma maquinação da sua terrível imaginação. Abeirou-se finalmente da porta principal do museu que se lhe deparou entreaberta. Ficou confuso, como sempre acontece com quem se depara  com portas entreabertas. Questionou-se: Aguardava pacientemente ou entrava sem mais delongas sujeitando-se ao vexame de se expor como um intruso, coisa que aliás nunca havia sido? Sempre aguardara quando se lhe depararam portas entreabertas. Sempre. Porém, este museu exercia um fascínio tal sobre a sua vontade que todos os pudores se dissiparam e decidiu colocar a cabeça no espaço deixado vago pela porta entreaberta. Mal iniciou o movimento para o fazer, foi abalroado por um magote de turistas que quase o sentou no chão. Logo atrás do grupo surgiu um homem baixo com formas de barril e farda militar. O visitante perguntou que raio se passava ali, ao que o militar respondeu, "Ora, já viram o suficiente. Agora entre. Por favor, entre. Há muito que esperávamos a sua visita." O visitante decidiu aceitar tamanha gentileza e ambos entraram lado a lado no museu. "Venho do país Longínquo." Disse o visitante, "Tive a sensação que o ouvi dizer que há muito que aguardavam pela minha visita. Não posso deixar de estranhar esta situação." O militar tentou colocar o braço sobre o ombro do visitante mas tendo este quase o dobro do seu tamanho apenas o enrolou à volta da cintura, e respondeu, "Não se incomode com isso agora. Vou-lhe mostrar o museu e por certo que irá gostar. Serei o seu cicerone. Gostará tanto que, sem qualquer dúvida, não se importará de cá gastar o resto da vida."

Encontravam-se dentro do enorme átrio do museu. De um dos corredores que afluíam ao átrio, surgiu um outro grupo de turistas que se encaminhava em passadas largas para a porta de saída. Atrás do grupo, uma mulher balofa, mais baixa do que alta, surgiu batendo as palmas e gritando, "Xô!, xô!" O grupo saiu porta fora e a mulher balofa gritou na direcção do visitante e do militar, "Pronto, eram os últimos." Ainda não tinham estas palavras acabadas de ser proferidas, já o militar puxava o visitante para si pela cintura e lhe dizia, "Perfeito. Temos todo o gosto em mostrar-lhe o museu. Temos colecções assombrosas, como os seus próprios olhos poderão testemunhar." E assim, o visitante, com o militar de um lado, a mulher balofa do outro, e uma terceira pessoa que do nada se lhes juntou, pôde iniciar a visita ao Museu de Etnologia. Essa terceira pessoa, que se juntou ao grupo sem proferir qualquer palavra que se afigurasse perceptível ao ouvidos de todos, visto não serem os grunhidos considerados compreensíveis ou sequer palavras, colocara-se estrategicamente atrás do três primeiros.

 

Continua 



publicado por Mário Ramos d´Almeida às 18:49
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