Segunda-feira, 27 de Julho de 2009

Uma vez que não existia ainda qualquer túnel no fundo obscuro da minha alma, decidi escavar um com as minhas próprias mãos, com os meus próprios dedos. Motivo para o fazer não o tinha, excepto descobrir em mim qualquer raio de luz no imenso breu da minha alma. Lancei-me ao trabalho. Foi um hercúleo esforço de inicio pois quando retirava a terra do túnel ela resvalava novamente para o seu interior. Fiz-me por entristecer para que a minha alma pudesse chorar e desse modo, com a ajuda das lágrimas, poder fixar a terra no exterior e nas paredes do túnel. Assim formei os primeiros metros, com lágrimas e terra suja, com lágrimas e húmus, com lágrimas e receios do fundo obscuro da minha alma. Fui avançando sem nunca sair do mesmo sitio. A terra fixava-se cada vez melhor nas paredes do túnel pois eu nunca deixei de chorar. Contudo, deparei-me com um problema: O túnel alargava mas em profundidade não havia maneira de o fazer avançar. Os meus dedos perderam pele, carne, osso, mas eu nunca deixei de escavar, fi-lo com muito afinco. Demorei-me dias, semanas, meses, e a verdade é que ainda escavo o túnel no fundo obscuro da minha alma, decorridos que estão já todos estes anos.



publicado por Mário Ramos d´Almeida às 20:20
Domingo, 19 de Julho de 2009

A seguir a uma porta aberta existe sempre outra fechada, e foi precisamente isto que me sucedeu numa tarde invernal em que um manto acinzentado desabava dos céus sobre a cidade repleta de portas abertas e fechadas, e muitas janelas, sobretudo muitas janelas. Sempre pensei que não sabia o que queria, mas afinal sempre trouxe tudo muito bem delineado dentro da minha cabeça. Ou pelo menos assim o julguei. Mas como dizia, atravessei a porta aberta e encontrei a outra fechada, portanto não tinha como sair do palácio erguido por escravos, e mantido por súbditos, nos meus sonhos. As janelas, essas, eram demasiado altas e portanto inacessíveis, nem mesmo com pulos fantasticamente sobre-humanos. Arrombar a porta fechada era-me desoladoramente impossível pois ela nem sequer lá se encontrava. A verdade é que saí do palácio pelos meus próprios pés e tanto assim é que aqui estou. Quis voltar atrás para tornar a atravessar a porta aberta mas nem isso me foi possível. Assim que atravessamos portas abertas elas fecham-se com estrondo atrás de nós. Visto que na minha cabeça grassam estrondos a qualquer instante, não a ouvi fechar. Passei pois a estar entre duas portas fechadas num palácio inabitado senão por todo o tipo de insectos e com janelas demasiado altas, inacessíveis. Eis o drama de uma vida inteira de cárcere dentro de mim.

Jamais andara de corda no bolso mas o certo é que naquele momento lá encontrei uma. Enrolei uma ponta no lustre que pendia sobre a minha cabeça e com a outra envolvi delicadamente o meu pescoço. Saltei para o vazio esperançado em me esticar mas, ó normal absurdo!, a corda partiu-se violentamente não suportando o meu peso e acabei por me estatelar sobre mim mesmo no marmóreo chão do palácio inventado. Estava, portanto, encarcerado dentro de mim. Estava pois encarcerado dentro de mim mesmo num palácio infindável, entre duas portas fechadas, mas sobretudo com muitas janelas altas, inacessiveis. Como raio escapar então desta fantástica armadilha montada pelos deuses? Da única maneira possível que o meu olhar vislumbrou: escavar um túnel em mim mesmo e rastejar por ele afora. E foi o que fiz, pelo menos aparentemente, não há certezas. A verdade é que não estou no palácio, não vejo portas abertas ou fechadas nem janelas altas ou baixas, apenas um enorme manto verde estendido por todos os lados do horizonte. A verdade é que aqui estou, mas nem disso estou seguro. 



publicado por Mário Ramos d´Almeida às 18:42
Domingo, 12 de Julho de 2009

 Ao poeta Mário de Sá-Carneiro    

 

 

 

Nas ruas batiam-se em latas, davam-se pinotes, cantava-se, dançava-se, tudo se entretinha enquanto a noite clara clamava surdamente por um pouco de sossego. Eu juntei-me à pândega pois não tinha sitio algum para onde ir, nem pessoa alguma a quem agradar. Fiz um furor tremendo com as minhas danças modernas que ninguém conhecia, e olhei as estrelas rodopiantes enquanto eu próprio rodopiava sobre o meu corpo que rodopiava tonto pelo chão dançante. Agarrei uma menina pequena para dançar e no espaço de uma dança ela fez-se senhora, e nós casámos, e tivemos até filhos, enquanto durou a festarola. Nunca percebi porque o tempo não passava por mim, e ainda não percebo, mas isso é porque ele ainda não passa. E eu por cá me desencontro de mim. O estranho não é continuar uma criança após tantos anos, o estranho é ser este tipo de criança que fui até há poucos instantes. O ter ganho asas também não é de estranhar, é uma consequência natural da vida. Explodiram foguetes numa miríade de cores e a noite ficou ainda mais clara, tanto que julguei que a festa estava no fim, mas afinal tinha apenas começado. Tudo tinha começado. Pensei, onde me sentia bem, realmente bem, era no meu berço, embalado pela voz da minha mãe, pela mão do meu pai, e pela angústia da vida, que me havia perfilhado. A pândega ainda continua, tudo dança ainda, mas eu recolhi-me no canto mais escondido da aldeia, e assim sigo vivendo, rodopiante pela minha vida afora esperando que a festa termine para eu enfim descansar... 



publicado por Mário Ramos d´Almeida às 18:24
Terça-feira, 07 de Julho de 2009

Já fui em tempos uma frondosa árvore; hoje sou um homem robusto. Compreendo que este facto cause algum espanto na nossa sociedade: Situação banal é um homem transformar-se em árvore, não o inverso como sucedeu comigo. Contudo, não sei se ser excepção é um previlégio ou uma condenação. Não pedi nada nem fiz mal a ninguém, não rezei a Deus nem fiz pactos com o Diabo. Enquanto árvore, uns adoravam-me, outros ignoravam, houve quem em mim marcasse o território ou fizesse ninho, mas, como podem ver, tudo situações normalíssimas, não havia razões para isto me acontecer. Bom, mas agora não há nada a fazer. 

Onde outrora tinha raizes profundas que me sustinham no solo, hoje tenho duas pernas arqueadas que mal sei utilizar - apesar de serem fortes ainda não aprendi a coordena-las correctamente, e amiúde as pessoas com quem me cruzo na rua têm de me amparar em ombros; tinha belos ramos fortes que se entregavam, deliciados, às brisas do fim de tarde, hoje tenho duas mãos na ponta de dois braços, e é claro que se revelam úteis mas são coisas brutas e o vento não gosta de lhes soprar. Deram-me um coração que bombeia sangue com uma constância irritante e dois pulmões que me fazem oscilar o peito, e ainda que isso me distraia não o posso impedir. Antigamente sentia o pulsar da terra penetrar-me docemente e nunca me cansava disso! Mas mais grave do que tudo isto: Deram-me a natureza do Homem. Pela primeira vez na vida tenho vontade de torcer pescoços, seduzir mulheres, cometer ilegalidades - e quanto mais imorais melhor! - beijar o meu melhor amigo na face e dizer aos guardas "É este." ajudar cegos a ir de encontro às paredes, deitar portas abaixo com o meu pé em riste, dizer aos velhinhos que o Fim do Mundo está para breve e depois roubar-lhes a casa enquanto eles saem para a rua de braços no ar. Entanto, nem tudo é assim. Também coço o queixinho dos bebés com o dedo enquanto lhes invento uma careta, aperto as bochechas aos desconhecidos nos cafés, e, além disso, só seduzo uma mulher de cada vez. 

Sinto saudades de ser árvore. Saudades de me elevar bem alto nos céus e fazer cócegas na barriga das nuvens; gritar aos pássaros "Sim, a vossa casa é por ali." ouvi-los cantar pela manhã, agradecidos, pousados nos meus ramos; ver passar o cortejo real com os seus ricos coches reais, os seus famintos súbditos reais, e o rei com a sua pança real; dar sombra ao camponês que dormita encostado ao meu tronco, e aos amantes cujas mãos oscilam saias acima calças abaixo; ver nascer, ver morrer, ver passar... Hoje tudo me angustia. Hoje, qualquer senão, qualquer dúvida, apresenta-se como uma fatalidade perante mim. Esta nova natureza desgosta-me. No Outono ficava despido mas nunca senti vergonha por isso, quando o vento soprava mais forte e me partia os galhos eu nunca fiquei ofendido. Compreendi sempre que eram ossos do ofício de ser árvore. Hoje não espirrem à minha frente pois sou bem capaz de vos degolar, não estou a brincar. Queria ser árvore e não homem, mas, bem sei, não há nada a fazer. Agora, apenas vivo a vida que já vi passar. Hoje sou um homem robusto, mas já fui em tempos uma frondosa árvore. 



publicado por Mário Ramos d´Almeida às 20:20
Segunda-feira, 29 de Junho de 2009

Tenho tanto orgulho nas minhas pulgas quanto nas minhas carraças. O velhinho das barbas brancas que dorme comigo debaixo das arcadas, também tem em mim muito orgulho, caso contrário nunca me chamaria para jantar como ele faz todas as noites. Ele é muito bom para mim, guarda-me sempre o melhor osso, abre-me os braços para que eu me possa enroscar nele, e eu durmo assim, sem medo do frio. Não temos predadores nesta cidade, mas mesmo assim nunca dormimos tranquilos. As estações são deveras o nosso maior inimigo. Mas eu tenho-o a ele e os meus parasitas têm-me a mim e assim somos todos felizes e quentinhos. Gosto desta cidade embora aqui aconteçam coisas às quais nunca me habituarei. Existem uns animais enormes de patas esquisitas que andam sempre atrás uns dos outros numa chusma fumarenta. Acho que são devoradores de homens, mas é difícil ter a certeza. Digo-o porque, às vezes, vejo pessoas a sair das suas barrigas; não tenho a certeza porque também é usual vê-las lá entrar de sua livre vontade. Suponho que seja de livre vontade, mas eu sou apenas um bicho, não sei nem posso supor coisa alguma. Durante o dia farejo odores que me possam conduzir a comida ou a cadelas no cio. Durante a noite mostro a barriga ao meu velhinho para que ma coce. Mas a vida nem sempre é assim, generosa para comigo. É frequente voarem pés duros contra o meu corpo frágil, não sei porque razão. É frequente gritarem e ralharem comigo, não sei com que intuito. Mas nessas madrastas alturas eu bebo água das poças e estiro-me deleitado no chão da rua para que o sol me beije, me abrace e me conforte.



publicado por Mário Ramos d´Almeida às 19:20
Domingo, 21 de Junho de 2009

Planeei o dia do seguinte modo:

Despertar ao raiar da manhã assim que os primeiros raios de sol raiem no meu quarto; Acordar de bem com a vida, com o mundo, e se possível comigo mesmo; Tomar um pequeno almoço abundante em cereais, frutas e quantidades exacerbadas de alegria e de boa disposição; Deslocar-me, aos pulos, a casa do meu amigo Fulano e pedir-lhe, amavelmente, que por favor me devolva os livros que lhe emprestei, agora que estão decorridos cinco anos desde então - todos os dez; Despedir-me de Fulano cordialmente devolvendo-lhe o passou bem; Deixar os livros devolvidos em casa e passear tranquilamente ao longo do rio de modo a que a maresia me entre pelas narinas até ao cérebro, e me incite, finalmente, a escrever o poema que terei no momento na minha cabeça e no meu peito; Sentar-me perto de uma senhora bonita e escrever o poema; Oferecê-lo à senhora e convencê-la a ir para casa comigo, ou não sendo isso possível até ao café, ou ficarmos apenas os dois ali, eu admirando o quanto ela é bonita, ela o quanto eu sou sensível, pois naquele momento estarei afagando o focinho do cãozinho que lá estiver, e não sendo nem isto possível dormitar eu mesmo, sozinho, na minha triste figura, junto ao rio, com a maresia a sair-me pela boca; Pedir a um transeunte se se não se incomodar me indique um bom restaurante onde possa almoçar resfateladamente;  Almoçar no restaurante ao lado; Demorar-me no café; Sentir a barriga inchada; Acender um cigarro à porta do restaurante e gritar uma viva bem alto, mas de modo a que ninguém me oiça, por o dia estar tão belo e prazenteiro; Comprar o jornal e sentar-me no banco do jardim lendo apenas os gordos cabeçalhos com as crianças brincando alto de um lado para o outro, os namorados passeando de mãos apertadas uma na outra, os enfastiados velhos dormitando sonoramente de mãos cruzadas segurando a barriga ampla; Caminhar com a segurança que tenho em mim mesmo pelas grandes avenidas apinhadas e olhar todas as montras de todas as lojas até disso me cansar; Sentar-me então na esplanada da pior taberna das redondezas e saborear a melhor refeição que os deuses podem oferecer; Ir ao teatro e poder, enfim, não entender nada do que lá se passar como eu tanto gosto; Aplaudir os actores de pé se ninguém se levantar ou apludir sentado se a peça for muito boa; Abraçar os mendigos que se aquecem, à porta do teatro, nas suas fogueiras de cartão; Dar-lhes as boas noites; Abrir bem os braços e voar no regresso a casa não esquecendo de dar aos pés para não cair; Chegar a casa extenuado de felicidade e mergulhar na minha cama de madeira antiga; Sonhar com este maravilhoso dia.

O dia passou-se-me do seguinte modo:

Acordei tarde e com azia; Ao sair da cama esqueci-me de que havia chão e acabei por me estatelar nele; Saí de casa sem me alimentar e não achei a gabardine que tive de procurar pois a chuva agredia os vidros das minhas janelas sem dó; Perdi-me nas ruas da minha infância e não me encontrei a tempo de almoçar; Além de azia, febre; Procurei o meu amigo Fulano para lhe pedir que me devolvesse os livros que lhe emprestei, entanto em vez disso lançou-me vitupérios e coisas à sua mercê tais como um vaso de gerbérias e uma cadeira; Fui atingido por esta última na fronte; Além de azia e febre, dor de cabeça; Sentei-me no banco do jardim e pedi um beijo à senhora que lá se encontrava e recebi dois estalos, um em cada bochecha; Decidi adiantar o relógio para o dia se gastar mais rapidamente, mas já o havia perdido não sei onde; Decidi então que o melhorar seria regressar a casa na passada mais larga que eu tivesse mas a meio do caminho fui assaltado por uns quantos rufias e levaram-me até a vergonha; Regressei a casa em pelota; Decidi que, após este dia malsão, me deitaria na minha cama velha até ao ano seguinte; Assim aconteceu.

Conclusão: Aconselho: Não faças planos. 

 



publicado por Mário Ramos d´Almeida às 21:57
Domingo, 14 de Junho de 2009

Sonho. Sou um eminente arqueólogo. Descobri o sarcófago que contém o segredo que salvará a humanidade inteira. Sussurro o segredo ao meu ajudante e tranco-lhe o ouvido à chave. Entro numa sala contígua à sala do sarcófago. As paredes são arenosas e o chão poeirento. O pó passeia-se tranquilamente pelo meu corpo adentro, desde o intimo dos pulmões à ponta dos dedos dos pés. Temo que a qualquer momento se levante uma tempestade de areia dentro da sala. Temo que os insectos que não estão aqui se alimentem dos meus olhos. Sou muito temeroso. Procuro uma porta por onde possa sair mas só encontro um buraco na parede onde não cabe mais do que um dedo. Além disso, um pequeno fio de pedra atravessa o buraco verticalmente. Pressiono o meu dedo indicador contra o fio de pedra que se quebra com facilidade. Atravesso o dedo pelo buraco afora e o meu corpo segue-o. Estou fora da sala. Reparo que deixei o meu ajudante lá dentro. Não fosse o facto de o segredo me ter fugido da memória tê-lo-ia lá deixado. Assim sendo, volto à sala. Primeiro o dedo, depois o corpo. O meu ajudante está muito agitado. Sacudo-o pelos ombros e peço-lhe que por favor se acalme. Dou-lhe uma palmada nas costas receando que o segredo lhe tenha ficado preso na traqueia. Pergunto-lhe por ele. Esqueceu. Bato com a mão na testa. Sorte malvada! Estou furioso e quero sair da sala. Encaminho-me para o buraco. Espanto meu, está um homem do outro lado do buraco. Empunha uma grande espátula de pedreiro e sobre ela um grande pedaço de cimento fresco. O homem fita-me dentro dos olhos. Apressa-se sobre o buraco, tira um pedacinho de cimento do grande pedaço de cimento fresco sobre a espátula e reconstrói o fio de pedra. Agora afasta-se a sorrir. Olho em volta e não encontro o meu ajudante. Decido sair da sala. Pressiono o dedo contra o fio de pedra, mas este é mais resistente do que o primeiro. Tenho medo. Tenho muito medo. Estou em pânico. Quero sair. O homem ri. Perdi o meu ajudante. Não lembro o segredo. Desato a gritar, "Quero sair, quero sair! Por favor, deixa-me sair!" E é então que o empregado do café me ordena que saia debaixo da mesa enquanto a minha namorada, enfurecida, cora de vergonha.



publicado por Mário Ramos d´Almeida às 19:03
Domingo, 07 de Junho de 2009

O senhor pediu-me que por favor lhe segurasse a escada que jactante se erguia contra a parede do edifício. Eu tinha muito que fazer e por isso fiz, por todos os meios à minha disposição, com que o senhor entendesse que só o poderia fazer por um instante, contudo faria-o de bom grado. Ele garantiu-me que não demorava mais do que isso e então chegámos a um acordo. Eu segurei-lhe a escada e ele subiu por elas acima, e chegado ele quase ao último degrau eu tive de correr para os meus afazeres, como lhe havia feito entender, e escusado será dizer que ele se estatelou redondo no chão, como eu tacitamente o havia alertado. Enquanto corria eu a passadas largas ao encontro dos meus deveres profissionais, ele gritou-me, "Era só um instante, tinha-me prometido!" E eu obviamente respondi, "Sim, e segurei o instante que me pediu. Mas pelos vistos existem vários tipos de instante." E deixei-o segurando a cabeça que sangrava abundantemente.



publicado por Mário Ramos d´Almeida às 18:33
Quarta-feira, 03 de Junho de 2009

Conhecera-o apenas há dez minutos, mas o facto é que ele era meu amigo, o meu único amigo. Nós éramos duas crianças, portanto dávamos muitos abraços e trazíamos as calças rotas. Partimos da aldeia rumo à cidade e pelo caminho entrámos em várias quintas privadas, subimos a várias árvores frutuosas, e várias, e apetitosas, eram também as frutas que comemos. Largávamos das quintas sempre todos lambuzados e com as roupas todas sujas. Andámos muito, muito, mas tamanha era a satisfação com que conversávamos, cantarolávamos e saltávamos que o tempo já estava longo e eu teria de regressar a casa com breve urgência. A minha mãe esperava-me debruçada sobre as panelas e o meu pai de cinto na mão. Chegámos à aldeia em dois minutos e ao chegarmos o meu amigo colou as palmas das mãos à cara e chorou. Perguntei-lhe porque chorava ele, o que se passava. Ele respondeu-me entre soluços que não queria regressar a casa porque o pai seria muito severo, aplicar-lhe-ia castigos horrendos. Um dia teria de regressar mas não queria que fosse para já, não naquele momento. Então ofereci-lhe a minha casa, a minha comida, a minha cama, ele era meu amigo, e ficou-me muito agradecido. Quando no dia seguinte acordei já ele lá não se encontrava e eu lancei-me doido à sua procura. Quando por fim desisti e me sentei na soleira encardida da porta da minha casa, ele apareceu enrolado num lençol segurando o fogo sábio. Ofereceu-mo. Havia-o roubado à família e disse-me que o pai seria capaz de lhe dar a comer os olhos aos bichos por essa traquinice. Eu ri-me e ele assegurou-me que seria verdade. Eu ri-me novamente e ele agradeceu-me tudo o que havia feito por ele.

Nunca mais vi o meu amigo, nem soube o que o destino lhe concedeu. Guardo ainda hoje o fogo sábio antigo, não o darei a ninguém nunca, foi ele quem mo deu, nem nunca esquecerei o meu amigo, o meu único amigo, Prometeu. 



publicado por Mário Ramos d´Almeida às 19:50
Quinta-feira, 28 de Maio de 2009

O poço era baixo para cima e alto para baixo, a boca larga tanto em baixo quanto em cima, enquanto eu era pequenino pois não passava de uma criança. Os pássaros voavam num conjunto ordeiro ocupando pequenos espaços no céu, e quando o primeiro oscilava ou mudava de direcção para os lados os outros seguiam-no de imediato como se fossem pequenas formigas com asas. Aproximei-me do poço porque não tinha com quem brincar e debrucei-me sobre a sua boca para poder espreitar dele. Gritei para que o eco me devolvesse as palavras porque enfim eram minhas, haviam saído da minha boca, "Sou uma criança!" Mas o eco ficou-me com elas, não respondeu. Fiquei desanimado, porém tentei mais uma vez, "Sou a criança da boca do poço!" E dessa vez ele devolveu-mas, "Só te respondo se cá vieres ao meu fundo." E eu disse, "Na, na, depois não consigo sair." E ele insistiu, "Mas assim não podemos conversar. Não é isso que queres?", "Eu só quero brincar, não te esqueças de que sou apenas uma criança, além disso já estamos a conversar.", "Então está bem, pronto." Mas eu tive pena dele porque eu era só uma criança. Saltei para dentro do balde de matar a sede e desci-me poço adentro. Chegado a meio do caminho dei-me conta da corda esgarçada e foi então que senti medo. Eu, uma pequena criança, a descer para o fundo de um poço por um balde suspenso numa corda esgarçada... Decidi regressar a cima e vi que os meus amigos já haviam chegado. Corri, saltei, estatelei-me por sobre a relva, e finalmente deitei-me junto deles que já lá se encontravam há muito.



publicado por Mário Ramos d´Almeida às 00:25
Da infância, da vida e da morte.
mais sobre mim
Dezembro 2009
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5

6
7
8
9
10
11
12

13
14
16
17
18
19

20
21
22
23
24
25
26

28
29
30
31


pesquisar neste blog
 
blogs SAPO